Senta lá, Cláudia!
Há uma voz interna que, às vezes, nem espera que o mundo nos rejeite. Ela mesma se encarrega de fazer isso primeiro.
“Você não é boa o suficiente.”
“Não vai conseguir.”
“Não exagere.”
“Quem você pensa que é?”
“Senta lá, Cláudia.”
A expressão pode soar engraçada, mas representa algo bastante sério: a maneira como muitas pessoas aprenderam a desautorizar a si mesmas. Antes mesmo de experimentar, já recuam. Antes de reconhecer o próprio valor, procuram a aprovação dos outros. Antes de dizer o que desejam, avaliam se esse desejo será aceito.
Quando trabalho a autoestima em sentido amplo na clínica, não me refiro simplesmente a “gostar de si” ou repetir afirmações positivas diante do espelho. Compreendo a autoestima como uma construção formada por quatro dimensões que se relacionam: autorrespeito, autovalor, autoeficácia e autoimagem.
O autorrespeito aparece na forma como estabelecemos limites. Uma pessoa pode dizer que se ama e, ainda assim, permanecer em relações nas quais é constantemente desconsiderada. Respeitar-se envolve reconhecer o que fere, sustentar um “não” quando necessário e deixar de aceitar certas situações apenas pelo medo de desagradar ou ser abandonada.
O autovalor está ligado à percepção de que nossa existência possui valor independentemente do desempenho, da aparência ou da aprovação externa. Quando essa dimensão está fragilizada, a pessoa pode acreditar que precisa ser útil, perfeita ou indispensável para merecer amor. Ela não se sente valiosa por ser quem é, mas pelo que consegue oferecer aos outros.
A autoeficácia é a confiança na própria capacidade de agir, aprender e enfrentar dificuldades. Não significa acreditar que conseguiremos tudo, mas reconhecer que podemos tentar, desenvolver recursos e lidar com eventuais frustrações. Quem teve suas iniciativas constantemente criticadas ou desqualificadas pode chegar à vida adulta duvidando das próprias decisões e buscando autorização até para escolhas que lhe pertencem.
Já a autoimagem, o único dos pilares de autoestima pensados pela maioria de nós, não se limita à aparência física, aliás nosso elo mais fraco, mais frágil, posto que passamos por inúmeras mudanças físicas no correr da vida, nas fases todas que atravessamos. Ela inclui a história que contamos sobre nós mesmos: quem acreditamos ser, como imaginamos que somos vistos e quais características conseguimos reconhecer em nós. Muitas vezes, essa imagem foi construída a partir de palavras ouvidas durante anos — “difícil”, “fraca”, “egoísta”, “incapaz”, “exagerada” — e passa a ser tratada como verdade.
Essas quatro dimensões não se formam isoladamente. Elas carregam marcas das relações familiares, das experiências afetivas, dos papéis sociais e das identificações que construímos ao longo da vida. Por isso, uma pessoa pode ser profissionalmente competente e ainda se sentir sem valor; pode gostar da própria aparência e não conseguir estabelecer limites; pode cuidar de todos e não acreditar que também merece cuidado.
A autoestima não é uma característica que alguém simplesmente possui ou não possui. Ela é uma relação construída consigo mesma — e essa relação tem uma história.
Na análise, não procuramos substituir pensamentos negativos por frases artificialmente positivas. Procuramos compreender de onde veio a voz que diminui, por que ela ganhou tanta autoridade e em quais momentos você passou a confundi-la com a própria verdade.
Talvez a “Cláudia” que mandamos se sentar seja justamente uma parte de nós que tentou falar, desejar, discordar ou ocupar espaço, mas aprendeu que seria mais seguro permanecer quieta.
O trabalho analítico permite perguntar: essa voz crítica realmente é minha? A quem eu continuo tentando agradar? Por que preciso ser perfeita para me sentir valiosa? O que temo perder quando estabeleço um limite? Quem eu seria se não precisasse corresponder o tempo todo?
Fortalecer a autoestima não significa convencer-se de que somos extraordinários. Significa construir uma percepção mais verdadeira de nós mesmos: reconhecer capacidades e limitações, sustentar escolhas, respeitar necessidades e não condicionar o próprio valor à aprovação de todos.
Às vezes, o primeiro movimento não é aprender a falar mais alto. É perceber quem, dentro de nós, continua mandando a nossa voz se sentar.
Pintei esta cerâmica de maneira livre, sem técnica perfeita e sem a obrigação de produzir algo impecável. Quando terminei, percebi algumas irregularidades — e, ainda assim, amei o resultado. Talvez tenha amado justamente porque a peça carrega algo verdadeiramente meu.
Durante muito tempo, fomos ensinadas a acreditar que só deveríamos mostrar aquilo que estivesse suficientemente bonito, correto ou aprovado. Mas gostar de si também passa pela liberdade de criar, tentar e ocupar espaços sem transformar tudo em uma prova de competência.
Esta peça não é perfeita. Ainda bem. Ela me representa porque não nasceu da busca por desempenho, mas do prazer de fazer.
Você não precisa se provar o tempo todo
Uma pessoa segura de si não é aquela que nunca sente ciúme, medo ou insegurança. É aquela que não permite que essas emoções conduzam todas as suas escolhas.
Ela não precisa testar continuamente o amor da parceria, interpretar cada silêncio como rejeição ou disputar atenção para confirmar que ainda é desejada. Consegue se relacionar sem fazer do outro o responsável por sustentar sua confiança.
Também não confunde autoestima com aparência. Cuida do corpo e pode gostar de se sentir bonita, mas sabe que nenhuma roupa, procedimento ou elogio consegue oferecer permanentemente uma segurança que não existe internamente. O espelho participa da forma como ela se percebe, mas não determina tudo o que ela é.
No trabalho, não espera sentir-se completamente preparada para aceitar um desafio. Reconhece que competência também se constrói enquanto fazemos, erramos e aprendemos. Por isso, uma dificuldade não se transforma imediatamente na conclusão de que ela é incapaz.
Também não precisa vencer sempre. Consegue atravessar uma separação, uma mudança profissional ou o envelhecimento sem interpretar cada perda como uma diminuição de si. A autoestima verdadeira não existe apenas quando a vida confirma nossas expectativas; ela se revela principalmente quando algo não acontece como desejávamos.
Gostar de si não é viver em permanente estado de confiança. É conservar uma referência interna mesmo quando faltam aplausos, certezas ou aprovação.
Na análise, buscamos compreender por que algumas pessoas precisam provar continuamente que são amáveis, bonitas, competentes ou necessárias. Aos poucos, torna-se possível trocar essa busca incessante por uma relação mais real consigo.
Talvez esse seja o verdadeiro segredo: não precisar demonstrar o próprio valor a todo momento para conseguir acreditar que ele existe.
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